
Cientistas políticos dizem que as mudanças dos comandos partidários ajudam a ampliar o descrédito na classe política pela forma como acontecem.
Fonte: Jornal O Povo (CE)
Apesar da movimentação partidária em torno do processo eleitoral que aponta no horizonte, as articulações visam a objetivos pontuais, e de forma viciada. A avaliação é do cientista político da Universidade de Fortaleza (Unifor), Francisco Moreira Ribeiro. Para ele, a onda de convenções faz parte de uma renovação apenas burocrática, que não envolve a militância e ajuda a explicar o descrédito na classe política.
Moreira chama a atenção para a permanência dos mesmos personagens ou grupos nos comandos das siglas. “Quando a prática política do dirigente acaba sendo a cara do partido, o partido não se renova por dentro”, diz o professor, completando tratar-se de apenas de “grupos de interesses” na sociedade.
O analista cita como personagens desse modelo Tasso Jereissati, Eunício Oliveira e Moroni Torgan, respectivamente, segundo ele, controladores incontestes do PSDB, PMDB e DEM, em nível estadual. Essa característica, destaca, não é restrita às forças de centro-esquerda.
O também professor de Ciência Política, na Universidade Federal do Ceará (UFC) Valmir Lopes, chama a atenção para o controle burocrático e político dos partidos, que, segundo diz, acaba passando uma falsa impressão. Ele cita o caso de Eunício. “Ele não é uma grande liderança. É um homem que controla o partido”, diferencia.
Em siglas como PCdoB, PT e PDT, continua Valmir, os comandos, com poucas variações, também são personificados. Ao lado do continuísmo nas legendas, a vida partidária brasileira sofreu, ao longo da história, rupturas que também prejudicaram o seu desenvolvimento institucional. Desde 1887, as siglas passaram por pelo menos sete grandes altos e baixos.
O professor Moreira diz que a falta de renovação não escolhe tamanho de sigla e, segundo ele, está prejudicando inclusive os dois maiores partidos nacionais – PT e PSDB. De acordo com ele, mesmo com origens diferentes, o PT corre o risco de ficar tão “engessado” quanto o PSDB, pela falta de renovação e apropriação por parte do governo a que pertencem. Encaixa-se nesse perfil o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoinni, candidato à reeleição e o único da corrida eleitoral interna que não perde a sintonia com o governo Lula.
“Todo partido que chega no poder e permanece nele muito tempo, fica com dificuldade de regeneração”, explica Moreira, referindo-se ao PSDB, que já nasceu no poder. Segundo ele, não será o declarado esforço das novas direções tucanas que dará uma nova feição à legenda. “A identidade do PSDB é com o poder. Isso é muito forte para de um dia para o outro se falar em aproximação com os movimentos sociais”.
Futuro presidente nacional do PSDB, em substituição a Tasso, o senador Sérgio Guerra, discorda de Moreira, e diz ter a fórmula para colocar o partido à altura dos novos desafios. “Ser da esquerda é arrancar o povo que está na pobreza para melhorar, e não acomodar o povo lá embaixo como o PT faz”, disparou Guerra, em recente entrevista.
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